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centro de documentação e informação desportiva de moçambique

Este blog tem como objectivo difundir a documentação de carácter desportivo

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De menina à Deusa das águas africanas

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A moçambicana Daisy Nhaquila é uma das duas atletas de África a conseguir acesso directo aos jogos Olímpicos de Tóquio 2020, após vencer o africano de vela deste ano. Conheça nos próximos parágrafos um pouco da vida de uma das mais promissoras velejadoras de Moçambique, de África e do mundo. 

O que começou forçado, acabou amado. Da birra para não velejar, a conquista do Africano deste ano e consequente qualificação aos Jogos Olímpicos de 2022 por mérito próprio, ou seja, sem um convite.

A verdade é que a Deisy Nhaquila que hoje a conhecemos começou, em parte, como muitos astros do desporto. É que por um lado ela iniciou nas camadas de formação, e por outro sem a sua vontade. 

Na prática hoje as crianças esbanjam beijinhos a camera. Sorriem empolgadas dirigindo-se ao mar para velejar, mas a primeira vez que lá foram (ao mar) a história foi, no mínimo, engraçada. 

"É um comportamento de crianças" disse Ernesto Rogério, o primeiro técnico de Deisy Nhaquila, antes de soltar uma gargalhada, provavelmente recordando o choro de centenas de crianças que passaram pelas suas mãos.    

Quanto ao choro, Deisy Nhaquila não foi uma excepção, ou melhor, ela também não queria por nada se fazer a água, e muito menos entrar no barco a vela para disputar uma prova. 

Quando o jornalista a questionou sobre os seus choros, ela começou sorrindo, incrédula. Tapou a face com as duas mãos, revelando alguma timidez. Uma reacção que surpreendeu o jornalista, afinal, a vergonha não é uma de suas características. 

"Eles estão a exagerar um pouco, mas é sim verdade, eu chorava muito" Deisy reconhece e justifica que "para uma criança de oito, nove anos, estar no meio do mar não é algo fácil de se encarar".     

E a dificuldade as vezes chega ao extremo. "Uma vez eu fazia a travessia Maputo – Chefina, e no meio da prova eu desisti, voltei e o meu coach mandou-me para casa" ela conta entre sorrisos e gargalhadas, e depois acrescenta, "eu disse a minha mãe que não queria mais velejar, mas meu pai ouviu e forçou-me a continuar".

Hoje eu agradeço pelo que ele fez” concluiu. 

 

Forçada pelo pai a saber velejar

O pai forçou-a a continuar, mas no clube Marítimo viu-se obrigada a começar a nadar (requisito necessário para velejar), e começar a velejar, tal como outras crianças da Escola Primaria do bairro do Triunfo, como explica o seu primeiro treinador.

"Tivemos um trabalho com a escola e elas cederam-nos um grupo de crianças (entre elas Deisy), e eu trabalhei com elas para os Jogos Africanos em 2011" recordou o coach Ernesto Rogério, que descobriu a campeã africana. 
Em 2011, tudo mudou para o clube marítimo e, no ano seguinte, tudo começou a mudar para a velejadora de 19 anos de idade, assim como para o novo treinador, César Sanchez. 

"Iniciou a treinar comigo em 2011, e aí começamos a fazer uma carreira de optimist, assim, desde 2012 até 2015 ela foi campeã africana" relembrou o segundo treinador de Deisy.  

 

Uma campeã num país desconhecedor da modalidade

Moçambique, um país novato na modalidade de vela, representado por uma atleta, até então desconhecida no mundo a fora, construía o que já se considera um reinado nas águas africanas.

Em 2016 foi campeã africana apela primeira vez já na classe Laser, já não na classe infantil, mas na classe Olímpica que ela apurou agora, já cada vez mais traquina, mais mulher, e nos últimos anos, a contar desde 2016 ano em que ela foi campeã africana, começamos a apostar num trabalho olímpico” recordou o treinador.  

 

Qualificação aos Jogos Olímpicos 2020 é uma grande responsabilidade

A aposta não podia ser a mais acertada, e veio a confirmar-se com a conquista de mais um africano, mas agora na classe Laser Radial, e que garante o ingresso aos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. 
É uma responsabilidade por eu ter sido a primeira classificada nos africanos de vela (deste ano) e por isso, uma das duas atletas africanas qualificadas aos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020” disse. 

Ao primeiro qualificado exige-se trabalho árduo, porque mais do que representar a si mesma, “representa Moçambique, representa toda a África que vê em mim um potencial enorme como velejadora” explicou Daisy.  

 O desejo de chegar aos jogos Olímpicos não é novo, e a melhor amiga, Elisangela, recorda que “ela fala sobre qualificar-se para os Jogos Olímpicos desde 2015, e sempre manteve o foco nisso”. 

E o foco agora é mostrar ao mundo que por cá há muito mais do que simples velejadora, que por aqui (em Moçambique e África) há verdadeiros diamantes por lapidar.

O meu colega tem dito que uns tem talento outros são esforçados, mas tu tens dom, tu nasceste para isso, e eu gosto porque é uma das coisas que ele diz que tenho, e que me destacam dos outros atletas” explica a velejadora.

 Mas dom apenas não basta para alcançar os objectivos, “é preciso trabalhar e moldar este dom, treinar arduamente, se esforçar, nunca faltar aos treinos, ter uma alimentação equilibrada, tem de estar tudo perfeito” clarifica. 

Para os Jogos Olímpicos, a melhor velejadora africana tem um único medo, o de não ter apoio quer para treinar fora e em centros de alto rendimento, quer dos familiares, a fonte das suas forças. 

 

Deyse: uma rol model
Para o clube Marítimo, Deisy tem sido um farol para as gerações vindouras. “Ela é o rol model, pois ela faz todos acreditarem que é possível chegar longe uma vez que ela conseguiu” disse Stalino Duarte, representante do clube Marítimo.  

O facto da promissora velejadora ter alcançado os Jogos Olímpicos é um feito que mostra avanços na qualidade dos velejadores nacionais, pelo menos aos olhos de Hélio Alberto, Presidente da Federação Moçambicana de Vela e Canoagem.

 Deisy Nhaquila treina arduamente com uma coach que não se encontra no país, mas que acompanha o progresso da atleta através de vídeos, para tentar ajudar a menina a velejar cada vez mais distante, hasteando a bandeira de um país com dificuldades de apostar a sério em modalidades individuais. 

 

Fonte:Opais